“Pela décima vez”: prostituição, marginalização social e o corpo das travestis em um poema de Amara Moira

João Gomes Junior

Resumo


O objetivo deste artigo é propor uma leitura do poema “Pela décima vez”, de Amara Moira, em busca de sentidos de prostituição e marginalização social de travestis no Brasil e de como o corpo das mesmas aparece na literatura de Moira. A base teórica está fundamentada no conceito de “Poema” de Octavio Paz bem como nas concepções de “Imagem” (SIMSON, 1998) e “Cidade” (MERINO, 2009). A metodologia empregada foi a análise das imagens e sequências discursivas do texto sob a perspectiva da AD francesa, a partir de Michel Pêcheux, compreendendo “discurso” a partir de Fernanda Mussalim (2000) e Michel Foucault (1999). Desta forma, ao me debruçar sobre as construções de sentidos e imagens das travestis nesse poema, tento uma aproximação com as formas como esses corpos desviantes estão na cultura, os seus trajetos e os seus silenciamentos, sua clandestinidade, performances e resistências na sociedade brasileira contemporânea. Intencionando identificar e igualmente refletir sobre questões como o espaço urbano, o silêncio e a exclusão social de que as travestis são alvo, busco compreender as performances e formas de resistência das travestis nas cidades e os modos pelos quais as suas vivências e os seus corpos são discursiva e literariamente elaborados a partir de categorias sociais correspondentes ao espaço público da rua.


Palavras-chave


Poesia; Literatura brasileira LGBTI+; Análise do Discurso; Corpo; História

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