Crioulo cabo-verdiano e papiamento: estudo comparativo de demonstrativos em anáfora no gênero textual de notícia

César Nardelli Cambraia e Daiane Soares Bertolino

Resumo


Este estudo teve como objetivo analisar comparativamente demonstrativos no crioulo cabo-verdiano e no papiamento na função de anáfora na modalidade escrita. Do ponto de vista teórico-metodológico, este estudo se baseou no modelo teórico tipológico-funcional de Givón (2001) e no modelo descritivo de Halliday e Hasan (1976), tendo sido realizado com base em um corpus composto de dados extraídos de textos do gênero textual de notícia. Testaram-se duas hipóteses, que puderam ser comprovadas. A primeira hipótese foi a de que a função anafórica é codificada prototipicamente por uma forma específica em cada língua, o que foi confirmado, pois se constatou que, no crioulo cabo-verdiano, a forma prototípica usada para essa função foi es e, no papiamento, foi e...aki /esaki. A segunda hipótese foi a de que outras formas podem aparecer exercendo essa função excepcionalmente, o que também foi confirmado, já que se constatou o emprego de kel/kes e de kel li exercendo a função de anáfora no crioulo cabo-verdiano e de e...ei/esei e e...ayá no papiamento. No caso do crioulo cabo-verdiano, as formas alternativas para expressar anáfora podem ocorrer por duas razões: (a) quando se trata de expressão demonstrativa com demonstrativo na posição de núcleo (empregando-se kel li) e (b) quando há a função superveniente de ativação de conhecimento compartilhado pressuposto pelo locutor (empregando-se kel/kes). Entretanto, há também a possibilidade de ocorrer kel/kes em contextos que não são os dois descritos anteriormente, o que significa que haveria variação linguística nesse domínio. No caso do papiamento, as formas alternativas para expressar anáfora podem ocorrer para codificar diferentes graus de distância em relação ao lugar da enunciação no caso de expressões demonstrativas temporais: usa-se e...ayá para marcar passado distante, e...ei para marcar passado indefinido ou próximo e e...aki para marcar futuro próximo. Entretanto, constatou-se também a existência de variação linguística, pois houve ocorrência de e...aki em expressão demonstrativa temporal para marcar passado próximo, assim como o faz prototipicamente e...ei, e também de e...ei/esei em expressões demonstrativas não temporais, assim como o faz prototipicamente e...aki/esaki.

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