CORUMBÁ (MS) E AS METAMORFOSES NAS POLÍTICAS BRASILEIRAS DE ORDENAMENTO TERRITORIAL E SEUS IMPACTOS NA REGIÃO DE FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA

Elisa Pinheiro Freitas

Resumo


Situada quase exatamente no centro geográfico da América do Sul, bem como à margem direita do Rio Paraguai – um dos rios mais importantes a compor a Bacia do Prata, a cidade de Corumbá (MS) e o seu porto fluvial figuraram, no final do século XIX, e nas primeiras décadas do século XX, como um dos principais “eixos” econômicos de integração Sul-Americana. Em Corumbá, atracavam navios estrangeiros e nacionais. Grande parte vinha e ia de/para Buenos Aires (Argentina), de/para Asunción (Paraguai), de/para Montevidéu (Uruguai), de/para Santa Cruz (Bolívia), entre outras localidades, trazendo e levando pessoas e mercadorias. Contudo, no início do século XX, verificou-se naquela região fronteiriça a aquisição de terras por empresas argentinas especializadas na produção do charque e da erva-mate. Tal fato fez com que o governo brasileiro, à época, promovesse uma política de reordenação do território fronteiriço em questão, com vistas a impedir a constituição de um Estado (controlado por argentinos) dentro do Brasil (Valverde, 1972). Em 1905, o governo brasileiro lançou as bases para a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligaria São Paulo à Fronteira (Brasil-Bolívia), bem como buscou engendrar um novo ciclo de ocupação do Centro-Oeste do país. O advento da “Noroeste do Brasil” alterou a dinâmica econômica daquela região fronteiriça, pois a circulação de mercadorias deixou de ser transportada prioritariamente pela principal “estrada líquida”, leia-se “Rio Paraguai”. A partir de então, o maior porto fluvial da América do Sul, situado em Corumbá, foi declinando em termos de importância. Tendo por base documentos históricos, artigos científicos e pesquisa de campo (entrevistas semiestruturadas realizadas com atores políticos e econômicos) esta comunicação objetiva demonstrar: a) como se deu o processo de declínio econômico de Corumbá (MS) e toda a região polarizada por aquela cidade; b) o papel do estado brasileiro na reordenação do território da região Centro-Oeste, culminando com a criação do Estado de Mato Grosso do Sul, após a divisão do Estado de Mato Grosso, em 1979; e c) perspectivas futuras para a retomada do desenvolvimento regional com a possibilidade da consolidação do corredor de ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico, tornando Corumbá, mais uma vez, ponto estratégico na integração do continente Sul-Americano.


Palavras-chave


Corumbá (MS), Fronteira Brasil-Bolívia, Política de Ordenamento Territorial, Integração Sul-Americana

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