Um relicário todo feito de sal para cicatrizar e curar: a poesia de mulheres negras diaspóricas

Visualizações: 1353

Autores

Palavras-chave:

Literatura, Poesia de Mulheres Negras, Diáspora

Resumo

Neste artigo, apresenta-se uma seleta de poemas produzidos por mulheres negras diaspóricas que elegeram como mote para a composição de suas poesias a travessia forçada do povo africano pela Calunga no processo de escravização, bem como os desdobramentos e atravessamentos reverberados na corporalidade negra no con(tra)temporâneo (CARRASCOSA, 2014). Sete poemas foram selecionados, um de cada uma destas escritoras: Lubi Prates, Neide Almeida, Fátima Trinchão, Conceição Evaristo, Lívia Natália, Maya Angelou e Lílian Almeida. Para a análise dos corpora optou-se por um referencial teórico também negro-diaspórico, elegendo-se a contramemória colonial (MIRANDA, 2019c) e a “espiral plantation” (MIRANDA, 2019b) como dispositivos analíticos, e a roda (MIRANDA, 2019b) como metodologia. Pretende-se, ainda, propor reflexões sobre a força da dor que tais eventos, aqui concebidos como da ordem do traumático, ainda provocam nas descendentes daquelas mulheres primeiras que para a diáspora foram lançadas e espalhadas. Concebe-se esta discussão, portanto, como uma possibilidade, um caminho para a cura.

Biografia do Autor

Hildália Fernandes, Universidade Federal da Bahia - Pós-Graduação em Literatura e Cultura (Doutorado)

Doutoranda em Literatura e Cultura (UFBA), Mestra em Educação e Contemporaneidade (UNEB), Especialista em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira (Fundação Visconde de Cairu), Especialista em Linguística Textual (CEPOM), Graduada em Pedagogia (Faculdade D. Pedro II). Pesquisa sobre a escrita literária de mulheres negras (em especial vida e bra de Carolina Maria de Jesus e Toni Morrison). É contista, com participação nos "Cadernos Negros" 36 e 38.

Mônica Naiara Santos, Universidade Federal da Bahia - Pós-Graduação em Literatura e Cultura (Doutorado)

Graduada em Letras - Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa (UNEB), Mestra em Estudos Literários, com ênfase em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Doutoranda Literatura e Cultura (UFBA). Pesquisa sobre as configurações da violência sistêmica em narrativas ficcionais de mulheres negras da diáspora africana.

Referências

ALMEIDA, Neide. Nós: 20 poemas e uma Oferenda. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2018.

ALMEIDA, Lílian. Desalento. Disponível: https://liberoamerica.com/2019/02/10/desalento/?fbclid=IwAR2ghWHq-nZYkovUXBkb7FOROWk2J9eLMpO5CRsqgT6s0QzjlULonSGUO6A. Acessado em 31/03/020.

ANGELOU, Maya. Canção para meus velhos. In: Carta a minha filha. Tradução Celina Portocarrero . 2 ed. Rio de Janeiro : Agir, 2019. p. 120-121.

ANGELOU, Maya. Maya Angelou: poesia completa. Tradução Lubi Prates. São Paulo: Astral Cultural, 2020.

CARVALHO, Liandra Lima. Mais do que ‘levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima’: um estudo sobre a autonomia superativa e emancipatória de mulheres negras cariocas. 2008. 128 p. Dissertação (Mestrado em Política Social) – Escola de Serviço Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói.

CARRASCOSA, Denise. Pós-colonialidade, pós-escravismo, bioficção e con(tra)temporaneidade. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea: revista do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília, Brasília, n. 44, p. 105-124, 2014.

CARRASCOSA, Denise Traduzindo no Atlântico Negro: cartas náuticas afrodiaspóricas para travessias literárias. Salvador: Ogum’s Toques Negros, 2017.

EVARISTO, Conceição. Poemas de recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora: Ed UFJF, 2005.

GALRÃO, Martha. XXXIII. In: A chuva de Maria. Simões Filho: Kalango, 2011. p. 62.

GARCÍA, Jesús Chucho. Afroepistemología e afroepistemetódica. In: WALKER, Sheila. (Org.). Conhecimento desde dentro: os afro-sul-americanos falam de seus povos e suas histórias. Chile: Editorial UC, 2018. p. 85-106.

HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: educação como prática de liberdade. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

HOOKS. bell. Autorecuperação. In: hooks, bell. Erguendo a voz: transformando o silêncio em revolução. Tradução Cátia Bocaiuva Maringolo. São Paulo: Elefante, 2019. p. 72-84.

HOOKS, bell. Mover-se para além da dor. In: Geledés. 2016. Disponível: https://www.geledes.org.br/mover-se-alem-da-dor-bell-hooks/. Acessado em 02/04/2020.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação – episódios de racismo quotidiano. Tradução Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

LEAL, Juliana Helena Gomes. Performatização da memória histórico-política em Tengo Miedo Torero, de Pedro Lemebel. Revista Literatura em debate: Dossiê Nação, Memória, Narração, publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Frederico Westphalen, v. 1, n. 1, p. 1-10, 2007.

MARTINS, Leda. Performances do tempo espiralar. In: RAVETTI, Graciela; ARBEX, Márcia. (Orgs.). Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte: Departamento de Letras Românicas, Faculdade de Letras/UFMG: Poslit, 2002. p. 69-92 .

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução Renata Santini. São Paulo: n-1 Edições, 2018.

MIANO, Léonora. Contornos do dia que vem vindo. Tradução Graziela Marcolin de Freitas. Rio de Janeiro: Pallas, 2009.

MIGNOLO, Walter. Desobediência Epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, n. 34, p. 287-324, 2008.

MIRANDA, Fernanda Rodrigues de. Corpo de romances de autoras negras brasileiras (1859- 2006): posse da história e colonialidade nacional confrontada. 2019a. 252 p. Tese (Doutorado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

MIRANDA, Fernanda Rodrigues de. Porque a roda é o avesso da torre: das potências reveladas pela leitura em conjunto de romancistas negras. 2019b.

Disponível: http://www.suplementopernambuco.com.br/edi%C3%A7%C3%B5es-anteriores/77-capa/2289-a-roda-como-forma-de-ler-romancistas-negras-brasileiras.html. Acessado em 02/04/2020.

MIRANDA, Fernanda Rodrigues de. "Ponciá Vicêncio": narrativa e contramemória colonial. Anuário de Literatura: periódico da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, v. 24, n. 2, p. 15-29, nov. 2019c.

NASCIMENTO, Tatiana. Do dever de denunciar a dor até o direito ao devaneio, nosso cuirlombismo literário. In: SOARES, Mayana Rocha; BRANDÃO, Simone; FARIA, Thais. Lesbianidades Plurais: outras produções de saberes e afetos. Salvador: Devires, 2019. p. 154-173.

NATÁLIA, Lívia. Frutos estranhos. In: Sobejos do Mar. Salvador: EPP, 2017. p. 65.

NUNES, Davi. Banzo, o Corpo que Singra e Sangra e o erótico na Poesia de Lívia Natália. 2019. 81 p. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade do Estado da Bahia, Salvador.

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. Matripotência: ìyá nos conceitos filosóficos e instituições sociopolíticas [iorubás]. Disponível: https://filosofia-africana.weebly.com/uploads/1/3/2/1/13213792/oy%C3%A8r%C3%B3nk%E1%BA%B9%CC%81_oy%C4%9Bw%C3%B9m%C3%AD_-_matripot%C3%AAncia.pdf. Acessado em 25/04/2020.

PIEDADE, Vilma. Dororidade. São Paulo: Editora Nós, 2017.

PRATES, Lubi. Não foi um cruzeiro. In: Um corpo negro. São Paulo: Nosotros, 2018. p. 23.

RAVETTI, Graciela. Narrativas performáticas. In: RAVETTI, Graciela; ARBEX, Márcia. (Orgs.). Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte: Departamento de Letras Românicas, Faculdade de Letras/UFMG: Poslit, 2002. p. 47-68.

SILVA, Jorge Augusto de Jesus. Contemporaneidades Periféricas: primeiras anotações para alguns estudos de caso. In: SILVA, Jorge Augusto de Jesus. (Org.). Contemporaneidades periféricas. Salvador: Segundo Selo, 2018. p. 31-70.

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. O carrego colonial. In: Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019. p. 17-24.

SOUZA, Ana Lúcia. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança: hip-hop. São Paulo: Parábola, 2011.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.

TRINCHÃO, Fátima. Travessia. In: RIBEIRO, Esmeralda; BARBOSA, Márcio. Cadernos Negros, volume 41: poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2018. p. 109.

Downloads

Publicado

2020-09-21

Como Citar

FERNANDES, Hildália; SANTOS, Mônica Naiara. Um relicário todo feito de sal para cicatrizar e curar: a poesia de mulheres negras diaspóricas. REVELL - REVISTA DE ESTUDOS LITERÁRIOS DA UEMS, [S. l.], v. 1, n. 24, p. 172–197, 2020. Disponível em: https://periodicosonline.uems.br/index.php/REV/article/view/5025. Acesso em: 14 abr. 2024.