"Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal": o ideal de abnegação materna em A Caolha

Autores

Palavras-chave:

A Caolha, Corpo Objetificado, Maternidade, Abnegação

Resumo

O presente artigo parte da leitura do conto A Caolha (1903), de autoria de Júlia Lopes de Almeida. Instituímos o corpo como ferramenta de análise, uma vez que este marca a narrativa, tanto na condição física da protagonista, nomeando-a, quanto na exigência do labor extenuante. Esse mesmo corpo liga-se à maternidade, já que o conto versa sobre a relação dessa mulher com seu único filho, Antonico. A Caolha traça uma espécie de protótipo da abnegação materna. Uma vez que o imaginário sobre a mulher corre em descompasso com a existência de mulheres reais, tal construção idealizada nos leva a conceber um dado realçado pelo discurso histórico da própria maternidade. Tendo isso em mente, destacamos a vinculação do ideário materno desenvolvido no conto com o período de influência do Positivismo no Brasil. Assim, ressalta-se ainda mais a existência de um modelo feminino, baseado no cerceamento da sexualidade, construído ao longo da história e enraizado na cultura; o centro sensível desse ideário é a mãe perfeita, educadora dos filhos, “anjo do lar”, defensora dos desvalidos, domesticada pelas exigências familiares.

Biografia do Autor

Érica Schlude Wels, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Professora associada Setor de língua e literatura alemã, Departamento de letras anglo-germânicas, Faculdade de Letras (UFRJ)

Referências

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Publicado

2021-01-21

Como Citar

Wels, Érica S. (2021). "Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal": o ideal de abnegação materna em A Caolha. REVELL - REVISTA DE ESTUDOS LITERÁRIOS DA UEMS, 2(25), 173–195. Recuperado de https://periodicosonline.uems.br/index.php/REV/article/view/5176