Sem provas não há passado? Ficção científica, arquivo e testemunho em Branco sai, preto fica

Autores

Palavras-chave:

Branco sai, preto fica, arquivo, ficção científica, testemunho, trauma

Resumo

Este artigo se propõe a discutir ficção científica, arquivo e testemunho a partir do filme Branco sai, preto fica (2014), de Adirley Queirós. Enfatizo que se trata de uma ficção científica construída a partir de um episódio real de violência policial em um baile black em 1986 na Ceilândia, em que dois dos atores foram vítimas e testemunham sobre o que viveram. No filme, um agente vem do futuro com a missão de produzir provas para que o crime seja reconhecido pelo Estado e os responsáveis punidos. Sem arquivos, é como se o acontecimento nunca tivesse existido, o que geraria um esquecimento oficial. O artigo está dividido em três partes. Na primeira, é discutido o recurso à ficção científica como forma de elaboração da memória traumática de um episódio de violência estatal. Na segunda, é problematizada uma dimensão paradoxal na transformação de testemunhos em arquivos: se por um lado ela auxilia na inscrição de episódios de violência que correriam o risco de serem apagados, por outro não é capaz acolher de forma apropriada a narrativa de dor de alguém que testemunha. Por fim, na terceira parte, o artigo discute a relação entre testemunho e arte e sua importância para a memória de violência no Brasil, em que há uma recorrente ameaça de apagamento do passado.

Biografia do Autor

Alan Osmo, Unicamp

Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo – Brasil. Doutorando em Teoria e História Literária na Universidade Estadual de Campinas – Brasil. ORCID iD: https://orcid.org/0000-0003-1046-7934. E-mail: alanosmo8@gmail.com.

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Publicado

30/11/2021

Como Citar

Osmo, A. (2021). Sem provas não há passado? Ficção científica, arquivo e testemunho em Branco sai, preto fica. REVELL - REVISTA DE ESTUDOS LITERÁRIOS DA UEMS, 2(29), 339–363. Recuperado de https://periodicosonline.uems.br/index.php/REV/article/view/6585