Memória inventada e o feminino na ficção de Ronaldo Correia de Brito
entre a exclusão e o retorno
DOI:
https://doi.org/10.61389/revell.v2i40.9547Palabras clave:
Ronaldo Correia de Brito, literatura, feminino, ficçãoResumen
Este trabalho pretende discutir, na trilogia de Ronaldo Correia de Brito, cujo cenário é o sertão nordestino, a tentativa de exclusão e o retorno do feminino, via memória inventada. Um fio condutor une a trilogia, composta pelo conto Faca (2003); e dois romances, Galileia (2008) e Rio Sangue (2024). Trata-se de um crime de feminicídio contado e recontado de formas diferentes. Esse evento, ocorrido na própria família do autor, nos tempos de fundação do sertão dos Inhamuns, no Ceará, foi escutado por ele quando ainda era criança, o assombrou e se propagou como mitologia local, através da cultura oral. Reelaborado em matéria literária, essa narrativa se desdobra na escrita de Brito de maneira recorrente e transformada. O crime de feminicídio, tal como é contado, aponta para um gozo masculino que impera no sertão, e que denuncia a tentativa de foraclusão do feminino. Mas, além disso, aponta para a insistência desse crime na repetição da narrativa, que por ser reelaborada, parece nunca se resolver. Propomos ler isso à luz da noção de feminino e de real em psicanálise, que implica o retorno daquilo que resiste à simbolização, marcando a narrativa com o peso de um trauma que não cessa de não se inscrever. Ao longo da trilogia, Brito tensiona os limites entre história, memória e ficção, produzindo uma literatura atravessada por ecos de um passado que insiste em permanecer.
Referencias
ANTELO, Marcela.; IORDAN Gurgel. O feminino infamiliar: dizer o indizível. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2021.
ARRIGUCCI JÚNIOR, Davi. Tempo de espera. Posfácio ao livro Faca. In: Faca e livro dos homens. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2017.
BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
BRITO, Ronaldo Correia de. Galileia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
BRITO, Ronaldo Correia de. Ronaldo Correia de Brito: Galileia, ruínas e labirintos do sertão. [Entrevista cedida a] José Inácio Vieira de Melo. Cavaleiro de fogo, 16 ago. 2009. Disponível: https://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/2009/08/entrevista-ronaldo-correia-de-brito.html. Acessado em 22/04/2025.
BRITO, Ronaldo Correia de. Paiol Literário. [Entrevista cedida a] Bruno Inácio. Revista Rascunho, edição 139, 01 nov. 2011. Disponível: https://rascunho.com.br/edicoes-impressas/edicao-139-novembro-de-2011/. Acessado em 28/04/2025.
BRITO, Ronaldo Correia de. Estive lá fora. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
BRITO, Ronaldo Correia de. Ao lado das mulheres, sempre. 2014. Disponível: https://www.ronaldocorreiadebrito.com.br/site2/2014/04/ao-lado-das-mulheres-sempre/. Acessado em 28/04/2025.
BRITO, Ronaldo Correia de. O amor das sombras. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015.
BRITO, Ronaldo Correia de. Faca e livro dos homens. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2017.
BRITO, Ronaldo Correia de. Rio sangue. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2024a.
BRITO, Ronaldo Correia de. Novo livro de Ronaldo Correia de Brito revolve raízes e vísceras do Brasil: “Rio sangue” é acerto de contas com a história falsificada do país, diz o escritor. [Entrevista cedida a] Carlos Marcelo. Estado de Minas. Pensar, 07 set. 2024b. Disponível: https://www.em.com.br/pensar/2024/09/6936927-novo-livro-de-ronaldo-correia-de-brito-revolve-raizes-e-visceras-do-brasil.html. Acessado em 16/01/2025.
BRITO, Ronaldo Correia de. Ronaldo Correia de Brito: “O povo brasileiro é múltiplo, não apenas dual’’. [Entrevista concedida a] Bruno Inácio. Le Monde Diplomatique Brasil, 06 dez. 2024c. Disponível: https://diplomatique.org.br/ronaldo-correia-de-brito-o-povo-brasileiro-e-multiplo-nao-apenas-dual/. Acessado em 28 abr. 2025.
CORTÁZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In: Valise de Cronópio. Trad. Davi Arriguci e Joao Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2006.
DAVID-MÉNARD, Monique. Les constructions de l’universel Psychanalyse, philosophie. Paris: Presses Universitaires de France, 1997.
FERNANDES, Pedro. Rio sangue, de Ronaldo Correia de Brito. Letras inverso e reverso. Literatura e entretenimento. 2024. Disponível: https://www.blogletras.com/2024/09/rio-sangue-de-ronaldo-correia-de-brito.html. Acessado em 21/10/2024.
GOTLIB, Nádia Battella. A teoria do Conto. Coletivo Sabotagem, 2004.
LIMA, Camila. Teixeira. Lições da pedra: modernidade pela margem na literatura ficcionada no sertão de Raimundo Carrero e Ronaldo Correia de Brito. Tese (Doutorado em filosofia). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Estadual de Campinas. 2019.
MÜGGE, Ernani; KIERNIEWET, Janniny G; CABRAL, Éderson de Oliveira. “Noite”, de Ronaldo Correia de Brito: lugar privilegiado de memória. Ensaio Essay, 2021. Disponível: https://seer.ufrgs.br/brasilbrazil/article/view/112283/61072. Acessado em 30/04/2025.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
PINHEIRO, Carolina Dias. A Biblia no romance contemporâneo: Projeção e reescritura na perspectiva do Personagem-leitor nos romances Galileia, de Ronaldo Correia de Brito, e O Evangelho Segundo a Serpente, de Faiza Hayat. Tese (Doutorado em Literatura). Programa de Pós-Graduação em Literatura. Universidade de Brasília. Brasília, 2023.
PINTO, André de Souza. Um crime que se repete na obra de Ronaldo Correia de Brito. In: XII Semana de Eventos da Faculdade de Letras, 229-237, 2015, Belo Horizonte. Anais [...]. Belo Horizonte Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2015. Disponível em: http://www.anais.letras.ufmg.br/index.php/SEVFALE/XIISEVFALE/paper/view/84/88. Acesso em 30 abr. 2025.
PINTO, Nathalia. A terra, o homem e a luta: o neorregionalismo em romances de Antônio Torres e Ronaldo Correia de Brito. Tese (Doutorado em Letras) - Programa de Pós-graduação em Letras. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2021.
RANCIÈRE, Jacques. O desmedido momento. Serrote. São Paulo, n.28, p.76-97, 2018.
SANTINI, Juliana. Entre a memória e a invenção: a tradição na narrativa brasileira contemporânea. Revista Cerrados, v. 18, n. 27, 2009. Disponível: https://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/13766. Acessado em 23/09/2024.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. A virada testemunhal e decolonial do saber histórico. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2022. DOI: https://doi.org/10.7476/9788526816473
STRINGHINI, Viviane. Galileia. Revista Travessias. v. 4. n. 2. 2010. Disponível: https://e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/419. Acessado em 14/01/2024.
Descargas
Publicado
Número
Sección
Licencia
Derechos de autor 2025 REVELL - REVISTA DE ESTUDIOS LITERARIOS DA UEMS

Esta obra está bajo una licencia internacional Creative Commons Atribución 4.0.
DECLARAÇÃO DE ORIGINALIDADE E EXCLUSIVIDADE E CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS
Declaro que o presente artigo é original e não foi submetido à publicação em qualquer outro periódico nacional ou internacional, quer seja em parte ou na íntegra. Declaro, ainda, que após publicado pela REVELL, ele jamais será submetido a outro periódico. Também tenho ciência que a submissão dos originais à REVELL - Revista de Estudos Literários da UEMS implica transferência dos direitos autorais da publicação digital. A não observância desse compromisso submeterá o infrator a sanções e penas previstas na Lei de Proteção de Direitos Autorais (nº 9610, de 19/02/98).













