O corpo dançante ou da tradução em Lavoura arcaica

Wanessa Gonçalves Silva, Luciana Wrege Rassier

Resumo


Dentre os estudos consagrados a Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar, poucos discutem aspectos ligados à tradução e, dentre eles, raros adotam uma perspectiva semiótica. Neste artigo, buscamos identificar se, e de que forma, o corpo e a dança podem ser considerados, no romance nassariano, como tradutor e tradução, respectivamente, de traços culturais e de sentimentos dos personagens, em especial da protagonista Ana. Para tanto refletimos sobre o conceito de tradução com base na teoria geral dos signos de Charles S. Peirce, apresentada em The collected papers of Charles Sanders Peirce (1931-1958). Também recorremos às reflexões sobre o corpo articuladas por Christine Greiner (2005), José Gil (1997) e Richard Shusterman (2008), bem como as ideias de Alain Badiou (2002) e Paul Bourcier (2001) sobre a dança. Constatamos, pelo modo através do qual o corpo da protagonista se apresenta ao mundo e pelas relações por ele desencadeadas em outros corpos, que os sentidos inscritos em nosso interior se podem transferir a outros espaços-corpos, nos quais os signos gerados encontram terreno fecundo para a semiose. Os resultados também apontam que a dança pode ser encarada como tradução sígnica tanto de uma cultura específica como de sentimentos e conflitos presentes nos personagens da narrativa.


Palavras-chave


Lavoura arcaica; Tradução; Semiótica; Corpo; Dança.

Texto completo:

PDF

Referências


ALZAYER, Penni. Middle Eastern dance. Philadelphia: Chelsea House Publishers, 2004.

BADIOU, Alain. A dança como metáfora do pensamento. In: BADIOU, Alain. Pequeno manual de inestética. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. p. 79-96.

BOURCIER, Paul. História da dança no ocidente. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

BOURDIEU, Pierre. O camponês e seu corpo. Trad. Luciano Codato. Revista de Sociologia Política, Curitiba, n. 26, p. 83-92, jun. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n26/a07n26.pdf. Acesso em: 8 mar. 2020.

CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA: RADUAN NASSAR. São Paulo: Instituto Moreira Salles, n. 2, set. 1996.

CARIELLO, Rafael. Depois da lavoura. Piauí, n. 70, jul. 2012. Disponível em: http://piaui.folha.uol.com.br/materia/depois-da-lavoura/. Acesso em: 5 abr. 2020.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Trad. Vera da Costa e Silva et al. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

DEAGON, Andrea. Mythology and symbolism in Middle Eastern dance. The best of Habibi, v. 16, n. 2, 1997. Disponível em: http://thebestofhabibi.com/vol-16-no-2-spring-1997/mythology/. Acesso em: 30 mar. 2020.

DIB, Márcia. Música árabe: expressividade e sutileza. São Paulo: Ed. do Autor, 2013.

ECO, Umberto. Quase a mesma coisa. Trad. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011.

FENSKE, Elfi Kürten. Raduan Nassar: tradição e vanguarda. Templo Cultural Delfos, maio 2013. Disponível em: http://www.elfikurten.com.br/2013/05/raduan-nassar-tradicao-e-vanguarda.html. Acesso em: 1 abr. 2020.

FONTES, Izabel. O horror vem de dentro: o abjeto e o corpo político em três contos de Mariana Enriquez. Revell, Dourados, v. 3, n. 20, p. 244-260, dez. 2018. Disponível em: https://periodicosonline.uems.br/index.php/REV/article/view/3175. Acesso em: 11 mar. 2020.

FRANKEN, Marjorie. Action signs in Egyptian flokloric dance: how to walk like an Egyptian. Journal for the Anthropological Study of Human Movement, Champaign, v. 12, n. 2, p. 14-25, 2002. Disponível em: http://jashm.press.illinois.edu/12.2/12-2Action_Franken14-25.pdf. Acesso em: 25 mar. 2020.

GIL, José. Movimento total: o corpo e a dança. Trad. Miguel Serras Pereira. São Paulo: Iluminuras, 2002.

GIL, José. Metamorfoses do corpo. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.

GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005.

JAKOBSON, Roman. On linguistic aspects of translation. In: VENUTI, Lawrence. The Translation Studies reader. 3rd ed. London; New York: Routledge, 2012. p. 126-131.

LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 1998.

NASSAR, Raduan. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

NASSAR, Raduan. Sou o jararaca: entrevista [1997]. Entrevistador: Mario Sabino. Veja, São Paulo, p. 9-13, 30 jul. 1997.

NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Trad. J. Teixeira Coelho Netto. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.

PEIRCE, Charles Sanders. The collected papers of Charles Sanders Peirce. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931-1935. Volumes I-VI editados por Charles Hartsforne e Paul Weiss. Volume VII e VIII editado por Arthur W. Burks.

PEREIRA, Alice de Araujo Nascimento. Necropolítica, patriarcado e o valor da vida humana nas distopias. Revell, Dourados, v. 3, n. 17, p. 143-158, nov. 2017. Disponível em: https://periodicosonline.uems.br/index.php/REV/article/view/1978. Acesso em: 11 mar. 2020.

PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2001.

RASSIER, Luciana Wrege. No silêncio eloquente da página. Cult, São Paulo, ano 20, n. 224, p. 26, jun. 2017.

RASSIER, Luciana Wrege. Trois enfants prodigues: intertextualité dans Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. In: DUMAS, Marie; UTÉZA, Fracis (Org.). Mélanges offerts à Claude Maffre. Montpellier: Université Montpellier III-ETILAL, 2003. p. 271-287.

RASSIER, Luciana Wrege. Le labyrinthe hermétique: une lecture de l'oeuvre de Raduan Nassar. 2002. Tese (Doutorado) – École Doctorale en Études Romanes, Université Paul-Valéry, Montpellier III, 2002. Em regime de cotutela com o Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2002.

SANTAELLA, Lucia. A teoria geral dos signos: como as linguagens significam as coisas. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. Trad. Antônio Chelini; José Paulo Paes; Izidoro Blinkstein. São Paulo: Cultrix, 2006.

SHUSTERMAN, Richard. Body consciousness: a philosophy of mindfulness and somaesthetics. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.

SILVA, Wanessa Gonçalves. Tradução e mediação: o corpo em Lavoura arcaica, de Raduan Nassar e de Luiz Fernando Carvalho. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, Florianópolis, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/185606/PGET0355-T.pdf?sequence=-1&isAllowed=y.

WEININGER, Markus J. Estrela guia ou utopia inalcançável. Uma breve reflexão sobre a equivalência na tradução. In: CARDOZO, Maurício; HEIDERMANN, Werner; WEININGER, Markus J. (Eds.). A Escola Tradutológica de Leipzig. Frankfurt: Peter Lang, 2009. p. XIX-XXVIII.

ZILLY, Berthold. Lavoura arcaica “lavoura poética” lavoura tradutória: historicidade, atualidade e transculturalidade da obra-prima de Raduan Nassar. Estudos, Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, v. 17, n. 01, p. 5-59, 2009. Disponível em: https://revistaesa.com/ojs/index.php/esa/article/view/307. Acesso em: 12 abr. 2020.




Direitos autorais 2021 REVELL - REVISTA DE ESTUDOS LITERÁRIOS DA UEMS

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.


Editor-chefe: Professor Doutor Andre Rezende Benatti

ISSN: 2179-4456