A subsunção real do trabalho docente na era das máquinas-plataformas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.61389/dxv2j030

Palavras-chave:

trabalho, educação, plataformas digitais, subsunção real, mercadorização da educação

Resumo

Analisa-se a plataformização da educação pública municipal em Florianópolis, Santa Catarina, como expressão contemporânea da maquinaria e da subsunção real do trabalho docente ao capital. A crítica da economia política e a discussão contemporânea sobre o tema referenda a discussão. Tem-se como hipótese que a difusão de plataformas digitais, padronização de matrizes curriculares, materiais didáticos, sistemas digitais de gestão e avaliações externas não representam a inovação tecnológica prometida, constituindo um todo estruturado à reorganização capitalista do trabalho pedagógico, analogamente à função da maquinaria na grande indústria do século XVIII. Metodologicamente, realizou-se triangulação entre revisão teórica, análise documental e entrevistas semiestruturadas com docentes e supervisores de uma unidade escolar da rede. A categoria maquinaria é fundamental para compreender as plataformas digitais, pois, combinada a outros materiais padronizados e avaliações elaboradas fora do contexto individual escolar, aprofunda a subsunção real e a alienação do trabalho docente, transformado em apêndice de processos pedagógicos pré-definidos. Verticaliza-se a expropriação do conhecimento pedagógico com a desintelectualização docente e reiteração da divisão social do trabalho entre pensar e executar. A resistência a esse processo está no trabalho vivo docente, em mediações pedagógicas diferentes do padrão esperado pela máquina-plataforma da escola.

Biografia do Autor

  • Soraya Franzoni Conde, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

    Professora do Departamento de Estudos Especializados em Educação e dos Programas de Pós Graduação em Educação (PPGE/UFSC) e em Serviço Social (PPGSS/UFSC). Foi professora visitante entre 2020 e 2021 no Programa de Pós Graduação em Psicologia e Educação Urbana da City University of New York (2020) pelo Programa CAPES/PRINT-UFSC e em 2023 na Unicamp (CNPq Pró Humanidades). Entre 2022 e 2024 realizou missões internacionais na Universitá Degli Studi Di Padova (Itália), na Ca'Foscari de Veneza e na Strathclyde University de Glasgow. Desde 2024 é membro da Cátedra Sérgio Vieira de Melo da UFSC. Tembé é membro dos Comitês Editoriais das Revistas Perspectiva (UFSC) e Research on Pre School and Primary Education. Parecerista Ad Hoc da Outlines Journals - (CUNY - NYC) e da ANPED. Coordenara do Eixo 21 Trabalho e Educação da ANPED SUL e Membro do Comitê Científico do GT 09/ Trabalho e Educação da ANPED Nacional. Coordenou e sub-coordenou o Programa de Pós Graduação em Educação da UFSC entre 2018 e 2020. Também foi chefe do Departamento de Estudos Especializados em Educação da UFSC entre 2017 e 2018. É pós doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela City University of New York (CUNY/ 2021/Bolsa CAPES), doutora em Educação (2012 - Bolsa Fumdes e CNPq) e mestre em Sociologia Política (2007- Bolsa CAPES) pela UFSC com doutorado sanduíche na Universidade de Lisboa (Bolsa CAPES). Coordenou os seguintes Projetos financiados via editais públicos: Curso de Especialização em Docência na Educação Infantil (MEC/SEB/2012-2014), o Programa Nacional Extensionista de Cultura, Artes e Infância (MINC/2015-2019), Curso de Aperfeiçoamento em Educação, Pobreza e Desigualdade Social (MEC/SEB/2019), A relação entre a escola, a cultura e a exploração do trabalho infanto-juvenil em territórios de precariedade de Santa Catarina (FAPESC/2018-2021). Atualmente coordena o Projeto de Cooperação Internacional em Rede EDUCAÇÃO ESCOLAR, REPRODUÇÃO SOCIAL E TRANSFORMAÇÕES NO MUNDO DO TRABALHO (CNPq/ 16/2024). Pesquisadora contemplada pelo Edital Jovens Pesquisadores da FAPESC (2018-2021). Foi pesquisadora vinculada ao Programa de Internacionalização da Capes-Print da UFSC pelo subprojeto ''Repositório de Práticas Interculturais''(CAPES - PRINT/2019-2024). É parte da equipe do projeto de pesquisa internacional Nova Gestão Pública e Tecnologias Digitais na Educação Básica e Impactos no Trabalho Docente: uma abordagem internacional Brasil Argentina e Portugal. Presidiu a Comissão de Seleção do PPGE/UFSC (2017 / 2018) e a Comissão de Credenciamento e Recredenciamento Docente do PPGE/UFSC (2021). Presidente da Comissão PIBIC/CED/UFSC 2025 e 2026. Atuou no Comitê de Assessoramento da CAPES - APCN (2019) - Produção Docente (2021). Atuou como avaliadora externa do CNPQ no PIBIC da Universidade Fronteira Sul durante 2023 e 2024. É membro do Histedbr/ UNICAMP, da ANPED, da ABET (Associação Brasileira de Estudos do Trabalho) e da AERA (American Education Research Association). Coordena o Eixo Educação e Trabalho da ANPED SUL e é parte do Comitê Científico do GT Trabalho e Educação da Anped-Nacional. Pesquisadora e membro do Núcleo de Estudos Sobre as Transformações no Mundo do Trabalho (TMT) desde 2002, onde lidera o Subgrupo de Estudos Trabalho, Educação, Feminismo e Infância (GETEFI). Tem pesquisas, livros e publicações sobre o Trabalho Infantil no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos da América. Atualmente pesquisa a relação trabalho e educação tendo como sujeito crianças, mulheres e docentes.

  • Rafaela Cunha Vargas Laureano, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

    Pedagoga, Professora da Municipal de Ensino de Florianópolis, Mestre em Educação pela UFSC, Doutoranda em Educação pela UFSC. Membro pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre as Transformações no Mundo do Trabalho.

  • Jaqueline Freitas, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

    Professora da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis, Mestre em Educação pela UFSC, Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Educação da UFSC, Membro pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre as Transformações no Mundo do Trabalho/ TMT-UFSC.

Referências

ADRIÃO, Theresa. Escolha da escola e privatização da educação: estado da arte (2015-2022). Fineduca: Revista de Financiamento da Educação, Porto Alegre, v. 14, n. 31, p. 1-19, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.22491/2236-5907137301. Acesso em: 17 jul. 2026.

ADRIÃO, Theresa; AZEVEDO, Janete P. Subsídio público à oferta educacional privada: reflexões a partir do modelo irlandês. Revista Brasileira de Política e Administração da Educação, Brasília, v. 35, n. 1, p. 119-139, 2019.

ADRIÃO, Theresa; GARCIA, Teise Oliveira; BORGHI, Raquel Fontes; ARELARO, Lisete Regina Gomes. Uma década de parcerias entre Estado e setor privado na educação brasileira: balanço e perspectivas. Educação & Sociedade, Campinas, v. 30, n. 108, p. 799-818, 2009.

ANTUNES, Ricardo; PINTO, Geraldo Augusto. A fábrica da educação: da especialização taylorista à flexibilização toyotista. São Paulo: Cortez Editora, 2017.

BALL, Stephen J. Global Education Inc.: new policy networks and the neoliberal imaginary. London: Routledge, 2012.

BASSO, P. Introdução. Tempos modernos, jornadas antigas: vidas de trabalho no início do século XXI. Trad. de Patrícia Villen. Campinas: Ed. da Unicamp, 2018.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

FENSELAU, Stephanie; NORMANHA, Ricardo. Currículo sob demanda e plataformas digitais: controle e heteronomia do trabalho docente. Revista Educação e Políticas em Debate, Uberlândia, v. 15, n. 1, p. 1-16, 2026. DOI: https://doi.org/10.14393/REPOD-v15n1a2026-79527. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/revistaeducaopoliticas/article/view/79527. Acesso em: 17 jul. 2026.

FERRARO, A. Liberalismo e educação ou porque o Brasil não podia ir além de Mandeville. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 14, n. 41, maio/ago. 2009.

FLORIANÓPOLIS (Município). Lei nº 10.915, de 14 de setembro de 2022. Dispõe sobre a Política Municipal de Tecnologia e Inovação na Educação e dá outras providências. Florianópolis: Prefeitura Municipal de Florianópolis, 2022.

FLORIANÓPOLIS (Município). Secretaria Municipal de Educação. Ofício SME/DEF nº 26, de 2025. Cronograma de implementação das Matrizes de Referência Curricular e das avaliações. Florianópolis: SME, 2025.

FLORIANÓPOLIS (Município). Secretaria Municipal de Educação. Ofício SME/DEF nº 156, de 2025. Encaminha a Matriz de Referência Curricular da Rede Municipal de Ensino. Florianópolis: SME, 2025.

FLORIANÓPOLIS (Município). Secretaria Municipal de Educação. Ofício SME/DEF nº 091, de 2026. Orientações para implementação do material estruturado LEIA. Florianópolis: SME, 2026.

FLORIANÓPOLIS (Município). Secretaria Municipal de Educação. Ofício nº 440/2026/GS/SME/PMF. Programa Reconhecer. Florianópolis: SME, 2026.

FLORIANÓPOLIS (Município). Secretaria Municipal de Educação. Portaria SME nº 592, de 2025. Dispõe sobre o registro, acompanhamento e monitoramento do planejamento pedagógico no Sistema de Gestão Educacional (SGE). Florianópolis: SME, 2025.

FRANZONI CONDE, Soraya; FAGIANI, Cílson César; PREVITALI, Fabiane Santana; MOREIRA, Rosana Mendes Maciel. Trabalho plataformizado e avanço das desigualdades educacionais no Brasil. Inequalities, [S. l.], v. 1, n. p. 117-137, maio 2025.

FREITAS, Luiz Carlos de. A reforma empresarial da educação: nova direita, velhas ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2018.

FREITAS, Luiz Carlos de. Os reformadores empresariais da educação: da desmoralização do magistério à destruição do sistema público. Educação & Sociedade, Campinas, v. 33, n. 119, p. 379-404, 2012.

GIARETA, Paulo Fioravante; MOURA EDUARDO, Camila Guilherme de; QUADROS, Sheila Fabiana de. O reformismo curricular no Brasil e as implicações para o trabalho-formação docente: aproximações teóricas. Interfaces da Educação, Paranaíba, v. 15, n. 43, p. 235-255, 2024. DOI: https://doi.org/10.61389/inter.v15i43.8758.

LAUREANO, Rafaela Cunha Vargas; CONDE, Soraya Franzoni. Mercadorização transvertida de inovação: reflexões sobre o trabalho docente no Ensino Fundamental durante a pandemia Covid-19. Revista Educação e Políticas em Debate, Uberlândia, v. 15, n. 1, p. 1-14, 2026.

MANDEVILLE, Bernard de. The fable of the Bees; or Private Vices, Publik Benefits. Londres. 1728.

MARX, Karl. Capítulo VI (inédito) de O capital: resultados do processo de produção imediata. São Paulo: Centauro, 2004.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

MÉSZÁROS, István. A educação para além do capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2008.

MILL, John Stuart. Principles of political economy with some of Their application to Social Philosophy. Londres, People’s. ed. 1868.

PEREIRA, M. M.; SILVA, R. I. P. Algoritmização da Aprendizagem na Educação Pública: Entre a Personalização e o Controle Pedagógico. Revista Tópicos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 30, p. 1-15, 2026.

PREVITALI, Fabiane Santana; FAGIANI, Cílson César. Basic education during the COVID-19 pandemic in Brazil: education that suits capital. Latin American Perspectives, Thousand Oaks, v. 50, p. 18-33, 2023.

PREVITALI, Fabiane Santana; FAGIANI, Cílson César. Trabalho docente na educação básica no Brasil sob indústria 4.0. Katálysis, Florianópolis, v. 25, n. 1, p. 156-165, 2022.

RUGIU, Antonio Santoni Nostalgia do Mestre Artesão. Campinas, SP: Autores Associados, 1998. 167p.

SANTOS, Rodrigo; SOUZA NETO, Antônio. Governança algorítmica e trabalho docente: evidências em redes municipais. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 51, n. 2, p. 1-22, 2026.

SAURA, Geo; ADRIÃO, Theresa; ARGUELHO, Mateus. Reforma educativa digital: agendas tecnoeducativas, redes políticas de governança e financeirização EdTech. Educação & Sociedade, Campinas, v. 45, p. e286486, 2024.

SEKI, Allan Kenji; VENCO, Selma. Política Nacional de Educação Digital: uma análise de seus rebatimentos na educação pública brasileira. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 15, n. 2, p. 448-471, 2023.

SILVA, Amanda Moreira da. A agenda pós-moderna na educação e o trabalho docente. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 14, n. 3, p. 11-18, 2022. DOI: 10.9771/gmed.v14i3.52358.

SILVA, Amanda Moreira da. Precarização e intensificação do trabalho docente na UERJ durante a pandemia. Advir, Rio de Janeiro, n. 41, p. 25-35, 2021.

SILVA, Amanda Moreira da; MANCEBO, Deise. Universidade, pandemia e mudanças tecnológicas: impactos para o trabalho docente. Trabalho, Política e Sociedade, v. 7, n. 12, e638, 2022.

SMITH, A. Inquérito sobre a natureza e as causas das riquezas das nações. vol. 1, 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.

TAYLOR, Frederick Winslow. Princípios de administração científica. São Paulo: Atlas, 2006.

VENCO, Selma. A “pilatização” na política educacional: a negligência à educação e à função públicas. Educação em Debate, Fortaleza, ano 46, n. 92, p. 1-17, jan./dez. 2024.

Downloads

Publicado

20-10-2026

Edição

Seção

Educação básica e formação docente: políticas educacionais e as (trans)formações do trabalho docente

Como Citar

A subsunção real do trabalho docente na era das máquinas-plataformas. (2026). INTERFACES DA EDUCAÇÃO, 17(49). https://doi.org/10.61389/dxv2j030